sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"A vida pode acontecer para nós, ou nós podemos fazer acontecer a vida"

 A nossa convidada de hoje é a querida Anne Pires. Ela é uma grande defensora do Parto Normal e do direito de escolha da mulher e veio aqui contar um pouquinho da linda experiência dela! Confiram!!



Ao descobrir minha gravidez não-planejada, busquei apoio. Queria estar em contato com outras grávidas para não me sentir sozinha naquele barco. Foi aí que tive a oportunidade de entrar num grupo de apoio ao parto humanizado (http://www.amigasdoparto.com.br/partohumanizado.html). Não fui até lá por causa de parto nenhum, fui buscando companhia. Na primeira reunião um jovem casal esteve lá para relatar o nascimento do seu bebê. Eu jamais vou esquecer os olhos brilhantes dos dois ao contar cada detalhe de um parto, natural, com uma equipe humanizada (http://www.amigasdoparto.com.br/profissionais.html). Fiquei fascinada. Comecei a buscar mais informações, pesquisei sobre todos os tipos de parto, prós e contras.

Conheci um mundo novo. E me vi querendo parir, provar da dor, vencer medos, permitir meu corpo agir naturalmente, ansiando vivenciar aquilo em absoluta plenitude. Alimentar essa vontade não foi fácil. Primeiro porque a família toda achava um absurdo eu querer ter um filho por parto normal. Ouvi que era coisa de índio e a tecnologia estava aí para ser usada a meu favor e sentir dores para se ter um filho era o fim da picada.

Eu não conseguia mais relacionar o parto normal só à dor e muito menos a cesárea como uma opção "sem dor". Segundo porque para se ter um parto respeitoso hoje em dia é preciso um investimento - o que eu não acho alto, valeu cada centavo. Mas ninguém entendia por que eu estava pagando pra ter meu bebê se eu tinha o convênio que cobria um médico, um pediatra, um anestesista e um quarto 5 estrelas no melhor hospital da cidade.

Quando eu falo de parto respeitoso, falo de respeito à mulher, à sua fisiologia, ao momento mais bonito e marcante da sua vida e à um nascimento sem traumas e sem violência. Isso tudo está distante da realidade da maioria dos consultórios médicos e maternidades do país. Enclausurado em protocolos médicos, o parto que deveria ser um acontecimento natural virou um evento médico, doloroso, muitas vezes humilhante, com intervenções desnecessárias, como a episiotomia e ocitocina na veia, causando mais dores, estas prescindíveis. Isso tudo não é falado claramente às pacientes da grande maioria de obstetras por aí e elas acabam optando pela forma que o médico lhe mostra mais conveniente, que muitas vezes a conveniência é só dele.

A mulher tem sim o direito de escolher de que forma vai ter o seu bebê, uma vez que isso se dará no corpo dela. Mas acredito que esse direito fica comprometido quando a informação que ela tem do obstetra se baseia na experiência pessoal dele e sem comprovação científica.Eu sou a favor da escolha consciente, considerando todos os prós e contras dessa escolha. E o mais importante não é exatamente o como o bebê nasceu, mas o papel desempenhado pelas mulheres na história de nascimento de seus filhos, guiando elas mesmas o caminho, sem serem conduzidas por qualquer protocolo. Eu tive muita sorte de cair num grupo que me forneceu tantas informações. E é exatamente isso que falta, informação. Queria trazer minha filha ao mundo respeitando um processo fisiológico, deixando homônio do amor (ocitocina) correr em minhas veias naturalmente e meu corpo trabalhar, perfeito como ele é. Foi feito pra isso!

Com todas essas informações e todo ideal formado na minha cabeça, eu fui atrás de uma obstetra humanizada e uma doula (http://www.doulas.com.br/) que foram fundamentais para que eu pudesse conduzir eu mesma o nascimento da minha filha. Todas as minhas vontades foram respeitadas, eu pude gritar, rir, chorar, rebolar, reclamar, sem que ninguém me repreendesse. E em um trabalho de parto você tem vontade de fazer muitas coisas para aliviar a dor e o cansaço e isso deve ser repeitado para que tudo possa fluir normalmente. Dor? Dói, dói muito, dói demais. Eu não vou mentir. Mas eu estava tão feliz por aquele momento, por saber que ver o rostinho da minha filha estava tão perto de acontecer, que eu curtia cada contração em êxtase. E quando eu não pude mais suportar, quando eu cheguei no meu limite, eu pedi analgesia.

Minha filha nasceu no escuro, sob olhares atentos e um tanto emocionados do meu marido e da minha mãe. Tinha música ao fundo - não me lembro exatamente qual, mas tinha! Eu senti cada centímetro daquele corpinho molinho que gestei por nove meses, sair dentro de mim. Ela veio para o meu colo na mesma hora, mamou no meu peito e nós pudemos admirá-la.

Dor? Qual dor? Todo o meu mundo estava ali, no meu colo. Um amor explodindo dentro de mim, momento mágico. Eu chorei, eu gritei, eu agradeci. Quem quiser ver, está aqui. As fotos e o relato de parto estão aqui http://relatodepartomariana.blogspot.com

Espero ansiosamente pela próxima oportunidade de vivenciar tudo isso novamente. E será no conforto da minha casa que o meu próximo filho desembarcará neste mundo.

"A vida pode acontecer para nós, ou nós podemos fazer acontecer a vida." (by Renata Penna)
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