terça-feira, 15 de novembro de 2011

180 vezes depois...

Por: Lilian

Sempre achei lindas as campanhas de amamentação. Bebês sorrindo, mamães com cara de felicidade plena, como se estivessem nas nuvens. Essas imagens retratam um sentimento único que a amamentação realmente traz, mas não num primeiro instante, não num piscar de olhos e não pra todo mundo. E é exatamente aí que mora o problema...na falsa impressão de que como um milagre tudo acontece e quem não consegue é menos mãe.

Eu sempre sonhei com o momento de amamentar a Olívia. Por ler muito a respeito, por saber da importância do leite materno e do vínculo mãe-filho para o desenvolvimento do bebê...sempre quis muito. Sabia que não seria tão fácil porque meus seios não tinham bico, mas não fazia ideia do que estava por vir. Quando a realidade se instalou, aquela ideia das campanhas de aleitamento, com lindas atrizes dizendo o quão fácil é amamentar, mais me deixava angustiada que motivada. Aliás, o intuito dessas campanhas é incentivar, não? Pois é...

Não se fala em falta de bico, não se fala em pega errada, rachaduras, dores....para todos os efeitos, tudo é lindo e mágico. Mas, eu estou aqui para dividir a minha experiência e dizer que não é.

Quando a Olívia nasceu, tentava abocanhar meu peito, mas não conseguia. Sem o bico, a boquinha dela escorregava. Os três dias de maternidade foram de total agonia, porque ela não pegava o peito, a equipe de enfermagem me trouxe bico de silicone e sem qualquer habilidade eu insistia pra que ela mamasse com o bico posicionado. Da mesma equipe ouvi recomendações totalmente contraditórias. Uma hora eu deveria insistir bastante porque fome ela não iria passar. Mais cedo ou mais tarde, ela pegaria o peito. Outra hora, diziam que eu não deveria insistir porque minha pequena associaria o peito a algo ruim, desprazeroso, e aí que não iria mamar mesmo....(Gente, fica aqui um pedido para as maternidades....por favor, alinhem o discurso. Vocês enlouquecem a gente com cada enfermeira falando uma coisa...). Bem, com o bico de silicone ela parecia mamar, fazia um barulhão e eu me acalmei, achando que estava tudo bem. Só que ela não parava de chorar e resolveram, na própria maternidade, complementar as mamadas com leite artificial. Foi aí que ela parou de chorar. Ou seja, ela estava morrendo de fome. Ela não conseguia mamar direito com o bico de silicone e chorava...chorava...chorava. Quando vinha leite no copinho, ela tomava e se acalmava.
Fomos pra casa e o sufoco começou. Ela berrava de fome e eu aos prantos porque não conseguia amamentar minha filha. Me sentia incapaz, menos mãe, menos mulher...muitas vezes amamentava chorando. Aí, ouvia: ela sente seu sofrimento, você está passando essa energia ruim para sua filha pelo leite...ficava mais angustiada, mais triste e o ciclo nada virtuoso se instalava.

Para ela não passar fome, continuei complementando com leite artificial e, para ela não se render logo à mamadeira, usava copinho, colherzinha, seringa...tudo para ela não desistir do peito.

No auge do desespero, chamei uma enfermeira especialista e segui em frente, com o bico de silicone, muita dor e sofrimento. A primeira pediatra que eu fui dizia: controle-se, não chore tanto porque a Olívia não sabe que você chora porque quer muito amamentá-la. Ela só sente a hostilidade do ambiente e fica mais difícil ainda pra ela. O choro era metade baby blues, metade amamentação, mas sem dúvida, ela não entendia o que estava acontecendo e chorava muito...um caos.

Por outros motivos, fui a outro pediatra e, como a Olívia não ganhava peso, ele pediu para tirarmos o bico de silicone. Nova luta. Voltamos a estaca zero porque a boquinha dela escorregava, ela não mamava, chorava de fome, e eu de dor e desespero. A pedido dele, colocamos no circuito uma fonoaudióloga. A fono me deu várias orientações, analisou a sucção da Olívia e viu que estava tudo bem, apesar dos pesares. A luta foi tanta que quando lembro de algumas cenas, não sei se dou risada ou se choro de novo...rs. Era cada manobra, cada ginástica, minha e da fono, para encaixar o peito na boca da nenê que juro, vocês não imaginam...Até os esportistas radicais duvidariam...Era toalha fralda para puxar, bico pra esticar, pega pra pegar...uma confusão. Ela ainda não ganhava peso como deveria. Nossa! Quantas vezes ouvi "pára com isso...dá logo uma mamadeira pra essa menina"; "Seu leite é fraco, não alimenta a nenê"; "Pára de judiar dela com essa obsessão besta".

O pediatra me deu um ultimato: "Se na próxima semana ela não tiver ganhado peso na proporção adequada (ela engordava, mas abaixo da média), entramos com a mamadeira. Sinto muito". Parece que ela ouviu. Quando ela completou um mês, ou seja, 180 mamadas depois (30 dias x 6 mamadas por dia...), ela pegou o peito. Sem toalha pra puxar ou bico pra esticar. Sem nada. 180 vezes depois de tentar eu consegui amamentar a minha cria. Consegui o tão sonhado contato pele a pele. O vínculo que pra mim é sagrado. Aos sete meses, Olívia, graças a Deus e a minha teimosia, segue mamando, engordando e supersaudável.
Queria dividir minha experiência com vocês e dar uma mensagem de força para aquelas que estão passando por dificuldades para amamentar. Insistam! Vale muito a pena.

Beijos,
Lilian
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...