segunda-feira, 21 de março de 2011

Estamos ensinando nossos filhos a lidar com o diferente?

Por: Tati
Hoje o blog da Rede Mulher & Mãe está participando de uma blogagem coletiva sobre um assunto importantissimo: Infância e Racismo. Recebemos o convite da nossa querida amiga Ceila e não hesitamos em aceitar logo! Se você quiser participar também, basta acessar esta página e seguir as regras.

Eu acredito que crianças não nascem com preconceito. Somos nós que ensinamos isso a eles, mesmo que muitas vezes nem cheguemos a perceber que estamos fazendo isso. Crianças não fazem, sozinhas, diferenciação entre negros, brancos, amarelos, gordos ou magros. Somos nós, os pais, que com nossas atitudes, ensinamos a eles como se comportar.

Outro dia fui buscar o Vítor na escola e fui recebida por uma professora de cabelo quase punk pintado de vermelho berrante, corpo coberto por tatuagens com símbolos estranhos, piercing no nariz e nas orelhas. E até comentei no twitter que precisava me esforçar mais pra ser uma pessoa melhor, porque eu confesso que fiquei chocada. É claro que eu não achei que ela fosse fazer algo de errado com as crianças, nem nada do tipo. Mas a aparência dela me chocou (não o suficiente para ir à direção da escola, tá? hehehe). Demorei um tempo pra processar porque eu me sentia assim, já que tenho amigos com aparência bem parecida e eu nem me importo. Talvez porque estivesse acostumada ao visual tradicional das professoras, sei lá, ainda não consegui entender isso. E tenho que confessar que não me senti bem com esse "estranhamento", não costumo ser assim.

Mas depois de muitas conversas sobre o assunto e muita reflexão, cheguei à conclusão de que o importante não foi o que eu senti e sim a forma com a qual eu lidei com o assunto. Procurei ao máximo não passar para o Vítor minha impressões, porque ele certamente as tomaria para ele também. Filhos são assim: se vêem os pais fazendo, acreditam que aquele é jeito certo de agir. E claro que eu não queria que isso acontecesse. Portanto, tentei agir com a maior naturalidade possível. Perguntei a ele o que achava da nova professora (coisa que pergunto sempre, com todas) e ele disse que ela era muito boa, que estava ensinando coisas legais. Aí perguntei o que estava escrito nas tatuagens dela e ele disse que não eram palavras, que eram só símbolos. Pronto, encerrada a conversa e tudo bem! Depois acostumei com o visual da nova "tia".

Claro que nem sempre é fácil agir assim. Muitas vezes fazemos comentários ruins e nem mesmo nos damos conta do que estamos fazendo. E muitas vezes este é um comportamento que aprendemos com os nossos pais, que incorporamos como nossos e nem sabemos o porquê. Já ouvi várias vezes pessoas de alguns lugares dizendo que sem seus Estados o Brasil nem existiria e que o Nordeste e seus habitantes poderiam desaparecer que não fariam falta alguma. Imagina os filhos dessas pessoas? Claro que eles crescerão pensando exatamente o mesmo, sem nem ao menos ter a oportunidade de conhecer como realmente é o Nordeste e os nordestinos.

Será que viver num ambiente diversificado facilita? Eu acredito que sim. Metade da minha família é negra, metade é branca. Vítor é branquelão, mas diz que é moreno, como a mamãe. Aprendeu a conviver bem com a diversidade. E outro dia, no meio de uma conversa sobre História e Escravidão, ficou furioso e incrédulo quando contamos que algumas pessoas antigamente achavam que negros e índios não eram seres humanos. Aquilo simplesmente não entrava na cabeça dele, como alguém poderia pensar assim?

Eu sei que talvez eu não seja a pessoa ideal para falar de preconceito, já que nunca sofri um, pelo menos não descaradamente e com má intenção. Uma vez, ao amamentar o Vítor, me pararam e perguntaram se eu era mãe dele (quase respondi: não, sou a ama de leite). Outra vez uma menininha linda, numa festa, perguntou se eu era a babá dele. Com meu pai, que é negão, perguntaram se ele era o motorista da família.

Mas será que esses valores também não foram passados para essas pessoas por seus pais e eles aceitaram sem questionar apenas porque eram crianças e acharam que as coisas são assim? Será que se aqueles pais, lá atrás, não tivessem conversado com seus filhos e mostrado que negros ou brancos, gordos ou magros, altos ou baixos, nordestinos ou sulistas, todos são seres humanos iguais a eles e têm igual valor, as coisas não poderiam ser um tiquinho diferentes? Que até pode parecer um clichê do tamanho do mundo, mas o que realmente importa é o que está do lado de dentro?

Então, vou lançar aqui uma reflexão: vamos pensar sobre os valores que estamos passando aos nossos filhos? Como estamos ensinando-os a lidar com o diferente? Será que há algo que podemos fazer diferente para mudar a situação? Porque até pode ser que eu e você, agindo assim com nossos filhos, mudemos o mundo instantaneamente. Mas, como eu disse outro dia lá no meu blog, se fizermos assim, em breve não seremos só eu e você. Seremos eu, você e os nossos filhos (porque não se enganem, eles também passam isso para os amigos). E depois, eu, você, nossos filhos e os filhos dos nossos filhos. E aí por diante. E como diz a história do menino que devolvia as estrelas do mar para a água, vamos fazer a diferença.
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